março 18, 2004

O Ego e o Outro

Um dia, eram talvez umas onze da noite, estava em minha casa, sozinho, quando recebi o inesperado telefonema de um querido amigo meu. Fiquei muito feliz por lhe ouvir a voz.
«Oi? Tudo bem? Como é que vai a vida?», perguntou.
E eu, sem saber porquê, respondi-lhe: «Oh... para aqui estou, muito só...»
«Queres conversar um bocado?»
Respondi-lhe que sim, satisfeito.
«Queres que vá até a tua casa?», perguntou-me.
Voltei a responder que sim, entusiasmado com a perspectiva de ter alguém com quem trocar dois dedos de conversa e animar o serão.
Desligou o telefone e, pouco depois, lá estava ele à minha porta.
Fartei-me de falar durante horas: do meu trabalho, da minha família, do meu divórcio, dos mil e um problemas da minha vidinha. Atento, ele escutou-me, animou-me, apoiou-me, aconselhou-me. Nem dei pelo tempo passar. Apesar de, nesse dia, estar muito cansado, a companhia do meu amigo fez-me muito bem. Foi óptimo para mim desabafar e escutar conselhos e palavras amigas. Era quase de madrugada quando nos despedimos.
Já à porta, lembrei-me de perguntar porque me tinha ele telefonado naquela noite, se tinha algum motivo especial.
Então o meu amigo disse-me:
«É que eu queria dar-te uma notícia... Fui ao médico e soube que os meus dias estão contados. Entrei em contagem decrescente...»
Fiquei tão surpreso e consternado que nem recordo o que mais lhe disse. Talvez um monte de vulgaridades. Mas, quando finalmente fechei a porta, de novo sozinho, entre os meus desencontrados pensamentos e emoções, não pude deixar de sentir um enorme desconforto pessoal. Quando o meu amigo me perguntou como eu estava, esqueci-me dele e só falei de mim. Ele, com os dias de vida contados, teve forças para sorrir, escutar-me e aconselhar-me e eu passei o tempo todo a pensar em mim e a falar dos meus dramazinhos pessoais. E, para cúmulo, desconfio bem que, se não fosse a tragédia do meu amigo, nem estava para aqui a recriminar-me pelo meu egoísmo...

Esta pequena estória sobre a amizade e as limitações do nosso próprio Ego, por tendência tão centrado nas próprias necessidades, satisfações, desejos e crenças que tem dificuldade em sair dele mesmo e encontrar o Outro, é de autor desconhecido. Foi reescrita e enviada por uma amiga minha.

Publicado por vmar em março 18, 2004 07:50 PM
Comentários

Ele preferiu ignorar o problema dele, para sofrer
bastava quando estivesse sózinho. Se calhar o aparente egoismo até favoreceu o esquecimento por
momentos do grave problema que fazia com que tivesse os dias contados.

Afixado por: congeminações em março 18, 2004 09:48 PM

É uma pequena história, que acaba por espelhar, muito daquilo, que nós por vezes, teima-mos em não querer ver.
A amizade, para quem a souber praticar, é isso mesmo.Só é pena que nem todos, o saibamos.

Afixado por: j.gonçalves em março 18, 2004 10:38 PM

Estas coisa vão acontecendo nas nossas vidas num maior ou menor grau mas é sempre bom lembrar que somos ilhas e que se não partilharmos o mar que nos divide continuaremos sózinhos, e a ver só o que da nossa ilha se vê.

Afixado por: Pedro Lima em março 18, 2004 11:19 PM